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Igreja da Penha: 385 anos de fé e festa

Sob protestos, lembro de enfrentar pequenininho os 382 degraus para alcançar a Igreja da Nossa Senhora da Penha.
Minha avó paterna, Yolanda, também pela fé, costumava sair de Petrópolis e ir ao santuário.
As vistas do Cristo Redentor e da Igreja da Penha nunca mais saíram da minha mente. O Rio visto de cima, com diferentes ângulos, em diferentes dores.
Ivana, prima de minha avó, estava nesse passeio. Recordo dela contando sobre uma lenda que deixaria qualquer criança alvoroçada: atacado por uma serpente, um homem foi salvo por um lagarto enviado por Nossa Senhora.
Em retribuição, Baltazar mandou construir uma pequena capela em 1635. Com o tempo e ajuda dos fiéis, a capela cresceu e se tornou a Igreja que conhecemos.
Outubro é mês de comemorar um marco da fé carioca e também aproveitar um dos festejos mais tradicionais do Brasil.
O sambista Noel Rosa adorava. Pixinguinha, que dispensa comentários, não perdia uma. Donga, autor do primeiro samba gravado da história, “Pelo telefone”, se inspirava nela.O pintor e compositor Heitor dos Prazeres, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, disse que “aquele tempo não tinha rádio, a gente ia lançar música na Festa da Penha. A gente ficava tranquilo quando a música era divulgada lá, que aí estava bem, que era o grande centro. Eu fiquei conhecido à partir da Festa da Penha.”

No começo, era uma celebração da colônia portuguesa, com todos os requintes e pompas da cultura europeia.

A Festa da Igreja da Penha é um dos divisores de água na história do nosso país.
Desde meados do século XIX, seguidos da abolição e da chegada da república, a Festa passou a ter um caráter mais popular. É possível ver a presença negra e toda sua bagagem cultural.
A roda de samba, a capoeira, o jongo, a música negra e a culinária mudaram o público e a dimensão do encontro.
O grupo que vai causar maior impacto na Penha é sem dúvida o dos baianos da “Pequena África”, na Praça Onze.
Tia Ciata e seus consortes armavam suas barracas com suas especialidades culinárias, sempre acompanhadas das tradições culturais do grupo.
Para alguns, a Festa era repleta de situações que desafiavam os bons hábitos e costumes: dançavam, bebiam e comiam até não poder mais.
Diversão costuma ser subversiva.
Durante breve período, um padre chegou a proibir a presença dos negros, além de recolher todos os instrumentos musicais. Com isso rolou um certo “apartheid”: os brancos ocupavam a parte superior e os negros a parte inferior e toda a rua dos Romeiros.
Ainda bem que durou pouco. Mas não pode nunca ser esquecido.
Neste domingo (25) haverá o encerramento da Festa. Respeitando as questões sanitárias, as missas irão acontecer, mas precisa de agendamento em alguns casos.
O cantor Elymar Santos, nascido em Ramos, fez uma live direto da Basílica Santuário de Nossa Senhora da Penha.
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