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Obras-primas de vidro e cor: um passeio pelos mais belos vitrais do Rio

Diariamente, quando clareia o céu da cidade, musas gregas das artes ganham vida no foyer do Municipal. Urânia, deusa da astronomia, aparece imponente na escadaria do Mast, em São Cristóvão. No Centro Cultural Justiça Federal, no Centro, uma mulher de olhos vendados surge no hall de entrada.

Os vitrais resistem — e nos levam ao Rio de Janeiro do começo do século XX, o Rio da Belle Époque, uma cidade que mirava tendências europeias e importava conceitos arquitetônicos para se glamorizar. A seguir, um roteiro inspirado nesta arte em extinção na cidade.

Teatro Municipal

Da Cinelândia, pouco se notam as figuras entre os pilares da fachada do Teatro Municipal. Inaugurado em 1909, o prédio tem ali seus três maiores vitrais, com 4,10m de altura e 3,20m de largura, cada. Lá dentro, as peças se engrandecem com a luz externa: deusas da dança, do drama e da música colorem o teatro.

Os vitrais do Municipal foram desenhados por Feuerstein e Fugel, dois artistas alemães de Stuttgart, e executados pela fábrica Franz Mayer, de Munique. Além das musas, há conjuntos nas escadas laterais, nas rotundas e na cúpula do foyer.

— Todos estão no andar onde ficam os gabinetes do presidente e do governador, que tinha que ser o andar mais bonito. No vitral da cúpula do foyer, Apolo tem símbolos do zodíaco atrás da cabeça: peixes e aquário. Em uma livre interpretação, indica que o prédio representava uma nova era. O Municipal já nasceu republicano — diz Fátima Cristina Gonçalves, chefe do centro de documentação do Teatro.

Os três principais vitrais do Teatro Municipal, no foyer Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Os três principais vitrais do Teatro Municipal, no foyer Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

Um dos principais vitralistas em atividade no Brasil, Luidi Nunes, da Luidi & Gonçalves, restaurou os vitrais do teatro em 2010, e não poupa elogios às peças feitas por Feuerstein e Fugel.

— Eles eram professores de Belas Artes, e a Franz Meyer é a mais prestigiada fábrica de vitrais que já existiu. Considero os vitrais do Municipal os mais bonitos do Rio — diz.

Praça Floriano s/nº, Cinelândia — 2332-9191. Visitas guiadas: ter a sex, às 12h, às 14h30 e às 16h. Sáb e feriados, às 11h, às 12h e às 13h. R$ 20 (reversível para compra de ingresso de espetáculos).

Centro Cultural Justiça Federal

Se no teatro as alegorias dos vitrais fazem referência às artes, na antiga sede do Supremo Tribunal Federal, no Centro, o tema é, naturalmente, a justiça.

— Era comum que os desenhos dos vitrais estivessem ligados à função do local onde seriam instalados — diz Helder Viana, arquiteto e subgerente do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, especialista no assunto.

Também de 1909, o edifício projetado pelo espanhol Adolfo Morales de los Rios, que abriga hoje o CCJF, tem seu principal vitral atrás da escadaria monumental, no hall de entrada. A peça é de autoria de Gastão Formenti, filho do italiano Cesare Formenti, importante vitralista da época, e traz a figura feminina representando a justiça, vendada, segurando uma espada na mão direita e uma balança na esquerda.

Um dos vitrais do CCJF exibe uma figura feminina representando a justiça. Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Um dos vitrais do CCJF exibe uma figura feminina representando a justiça. Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

Outros vitrais do espaço também evocam o tema da lei, como os que representam o jurista americano John Marshall e Justiniano, imperador bizantino do século VI. Estes últimos são de autoria do belga François Frank Urban, desenhista da Casa Conrado, de São Paulo, provavelmente a mais importante oficina de vitrais que já funcionou no Brasil.

Av. Rio Branco 241, Centro — 3261-2550. Ter a dom, do meio-dia às 19h. Grátis.

Catedral Metropolitana

Pelo estilo incomum, os vitrais da Catedral Metropolitana de São Sebastião são, talvez, os mais conhecidos dos cariocas. Estão nas quatro faixas que acompanham a cruz do teto da catedral, de arquitetura cônica, inaugurada em 1979. Os vitrais somam 4.750 m² de cores vivas e traços modernistas.

— São de Lorenz Heilmair, um alemão que, além de ter desenhado, fabricou os vidros e executou a obra — conta Helder Viana.

Técnica empregada nos vitrais da Catedral Metropolitana é incomum: além do uso do concreto no lugar de ligadura de chumbo, os tijolos vidros tem espessura de 2,5 cm Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Técnica empregada nos vitrais da Catedral Metropolitana é incomum: além do uso do concreto no lugar de ligadura de chumbo, os tijolos vidros tem espessura de 2,5 cm Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

Segundo Luidi Nunes, os vitrais de Heilmair merecem destaque por se tratar de uma técnica diferente.

—Foram feitos com tijolos de vidro pesados, com 2,5 cm de espessura. O resto é feito em concreto — conta Luidi.

Av. Chile 245, Centro — 2240-2669. Diariamente, das 7h às 17h. Missa aos domingos, às 10h. Grátis.

Basílica da Imaculada Conceição

A igreja na Praia de Botafogo tem um dos conjuntos de vitrais mais preciosos do Rio, segundo os especialistas. São de 1891 e foram projetados pelo francês Lucien Bégule, de Lyon, sob encomenda das irmãs da Congregação das Filhas da Caridade. São 19 vitrais de temas religiosos. Uma série retrata o evangelho. Outra narra a vida de Maria. Uma composição reproduz “A primeira missa do Brasil”, pintura histórica de Victor Meirelles.

De arquitetura neogótica, Basílica da Imaculada Conceição, em Botafogo, tem conjunto de 19 vitrais datados de 1891 Foto: Ana Branco / Agência O Globo
De arquitetura neogótica, Basílica da Imaculada Conceição, em Botafogo, tem conjunto de 19 vitrais datados de 1891 Foto: Ana Branco / Agência O Globo

— É uma das igrejas neogóticas mais antigas e belas do Brasil, feita de pedra e não de concreto armado. Os vitrais são de altíssima qualidade, feitos com técnicas medievais, com vidros especiais, soprados artesanalmente — comenta Helder Viana.

Praia de Botafogo 266, Botafogo — 2551-7948. Seg a qui, das 7h às 18h40. Sex e sáb, das 9h às 18h40. Dom, das 7h às 19h40. Grátis.

Edifício Touring

No Edifício Touring, vitral da escadaria tem inspiração na fauna brasileira Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
No Edifício Touring, vitral da escadaria tem inspiração na fauna brasileira Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

Ponto de embarque e desembarque portuário, o Touring, na Praça Mauá, abriga, até o dia 29, mais uma edição do Casa Cor. Projetado pelo francês Joseph Gire — o mesmo do Copacabana Palace — e inaugurado em 1926, tem, entre outros elementos art déco , vitrais de Cesare Formenti.

—Os vitrais são importantes porque, além da passagem de luz, eles adornam e trazem elementos decorativos e educativos. Os do Touring mostram a flora brasileira, com uma grande palmeira e as bromélias. O vitral na entrada retrata a chegada dos portugueses ao Brasil, com caravelas, paisagem da Baía de Guanabara e relevo do Rio de Janeiro — explica o arquiteto Mario Santos, um dos responsáveis pela escolha do local para abrigar o Casa Cor.

Casa Cor: Praça Mauá s/nº, Centro —2512-2411. Ter a sáb, do meio-dia às 21h. Dom, do meio-dia às 21h. R$ 50 (ter a sex) e R$ 60 (sáb e dom). Nesta sexta (13), durante a happy hour (das 17h às 21h), ingresso a R$ 25. Até 29 de setembro.

Museu de Astronomia e Ciências Afins

Urânia é a musa do Mast. Plena, descansa diante das escadarias em mármore carrara do museu, em São Cristóvão. É o principal vitral entre os sete do prédio, e também tem a assinatura de Cesare Formenti. De pé, a deusa da astronomia segura um compasso e uma luneta. Ao seu redor, signos do zodíaco.

Rua General Bruce 586, São Cristóvão — 3514-5229. Ter a sex, das 9h às 17h. Sáb, das 14h às 19h. Dom, das 14h às 18h. Grátis.

Norte Shopping

Vitral em shopping? Sim, e não é pouca coisa. O Norte Shopping tem mais de 1.200m² de vitrais no teto do segundo piso. Os conjuntos foram desenhados pelo britânico Brian Clarke, vitralista com projetos espalhados no mundo inteiro. É o primeiro abstrato da lista, e foi colocado no shopping em 1996 pela oficina Franz Meyer.

Av. Dom Hélder Câmara 5.474, Cachambi — 3315-4300. Seg a sáb, das 10h às 22h. Dom, das 13h às 22h.

Palácio Tiradentes

Vitral do Palácio Tiradente reproduz o céu do Rio às 9h15 do dia 15 de novembro de 1889, o chamado
Vitral do Palácio Tiradente reproduz o céu do Rio às 9h15 do dia 15 de novembro de 1889, o chamado “exato momento” da proclamação da república Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

Antigo Congresso Nacional (até 1960) e hoje sede da Assembleia Legislativa do estado do Rio, o Palácio Tiradentes tem em seu vitral de cúpula um simbolismo republicano. Em tons claros de azul, a composição retrata o céu do Rio às 9h15 do dia 15 de novembro de 1889, o chamado “momento exato” da Proclamação da República. Desenhado por Rodolfo Chambelland e também executado por Gastão Formenti, o vitral abobadado tem 2,5 mil fragmentos de vidro e passou por uma reforma recente, também feita por Luidi Nunes.

Rua Primeiro de Março s/nº, Praça Quinze — 2588-1251. Seg a sáb, das 10h às 17h. Grátis.

Real Gabinete Português de Leitura

Quem entra ali olha logo para cima. Impressiona a funcionalidade do vitral de cúpula do Real Gabinete, que ilumina o interior do edifício com pé direito triplo.

— Veio pronto de Portugal, e a parte de ferro, da Inglaterra — explica Luidi Nunes, com uma observação técnica. — Não é exatamente um vitral, pois não tem ligadura de chumbo. É de ferro fundido, com vidros coloridos.

Rua Luís de Camões 30, Centro — 2221-3138. Seg a sex, das 9h às 18h.

Outros vitrais:

Igreja Bom Pastor (Tijuca): Também fabricados pela oficina alemã Franz Meyer, são de 1907. São cerca de 50 vitrais que decoram portas e janelas da igreja, todos religiosos.

Confeitaria Colombo (Centro): De autoria desconhecida, os vitrais de cúpula da confeitaria são de 1925. Para Luidi Nunes, que fez uma réplica em menor escala no Galeão, provavelmente foram feitas pela Casa Conrado.

Casa Julieta de Serpa (Flamengo): O lugar tem vitrais importados, assinados pelo francês Charles Champigneulle, o mesmo que fez os vitrais do Palácio Laranjeiras. São de 1920.

Fluminense (Laranjeiras): O salão nobre do clube tem vitrais franceses, encomendados pelo então presidente Arnaldo Guinle em 1920 para compor a arquitetura do catalão Hypolito Pujol.

Igreja da Candelária (Centro): Os vitrais da Candelária são do final do século XIX e foram projetados pelo alemão Franz Zettler, de Munique. São de cunho religioso e necessitam de restauração por conta de vandalismo.

Museu da República (Catete): De procedência alemã, os vitrais do museu são os mais antigos da cidade. O da claraboia é de 1863, com desenho de Gustav Waehneldt.

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